As idéias que ajudaram a modelar o pensamento teológico do século vinte


Teologia é um vocábulo que encontra sua origem na junção de duas palavras gregas: “Theos”, que significa Deus, e “logos”, que significa discurso ou razão. Logo, a teologia é o estudo de Deus e de sua relação com o universo. Ela é também o estudo das doutrinas religiosas e das questões de divindade. Toda dissertação ou raciocínio sobre Deus, constitui uma teologia.

O estudo de Deus é da máxima importância. Como disse o reformador João Calvino: “Quase toda sabedoria que possuímos, ou seja, a sabedoria verdadeira e sadia, consiste em duas partes: o conhecimento de Deus e de nós mesmos”.

O homem é irremediavelmente um animal religioso. Desde a antiguidade, Deus tem sido a principal preocupação do escrutínio humano. Sócrates, Platão, Aristóteles e todos os pensadores gregos importantes formularam teorias teológicas especulativas sobre Deus. A existência de Deus para esses homens era algo totalmente racional e necessário.

Diferentemente da teodicéia Socrática, Platônica ou Aristotélica, o cristianismo apresenta-se como religião revelada. Há pouca necessidade de especulações e elucubrações metafísicas, pois ele já parte do pressuposto de que Deus se revelou em sua Palavra, e na plenitude dos tempos nos falou por meio do seu filho Jesus, que andou entre nós pregando e fazendo milagres, sendo crucificado no tempo em que Pôncio Pilatos era governador da Judéia. Os apóstolos, encarregados por ele de pregar a sua mensagem ao mundo, escreveram sua biografia e eventos relacionados ao cristianismo. Esses registros documentais começaram a surgir após um breve hiato, não maior que trinta anos. É interessante notar que quando os primeiros relatos começaram a circular, muitas das testemunhas oculares dos fatos por eles narrados ainda estavam vivas. Ora, caso a narrativa apresentada por eles fosse considerada fantasiosa ou mítica, não faltariam pessoas para desmascará-los. No entanto, nos dias apostólicos não houve alguém que pudesse por em dúvida a historicidade de Jesus. Nem mesmo o Talmude, em todo o seu zelo judaico, nega que Jesus de Nazaré tenha feito milagres.

Ainda segundo a narrativa bíblica, esse Jesus nasceu de uma virgem, exatamente como vaticinara o profeta Isaías cerca de setecentos anos antes do seu nascimento. Ele era da descendência de Davi, e ressuscitou ao terceiro dia, havendo aparecido aos seus apóstolos e a uma multidão de mais de quinhentas pessoas (1Coríntios 15.6). Sua morte não foi um evento fortuito, contingente – ela foi providencial. Através do seu sacrifício, todos nós podemos chegar perto de Deus e, confessando as nossas iniqüidades, receber o seu imerecido perdão.

Os dois últimos parágrafos são um resumo do cristianismo bíblico e ortodoxo. Por ortodoxo, entende-se o bojo essencial do cristianismo histórico. Essa visão ortodoxa das Escrituras foi preservada ao longo dos anos, embora em alguns períodos da história não faltassem grupos para elaborar uma teologia diferente, apresentando novos e estranhos pressupostos sob os quais a Bíblia deveria ser interpretada.

As primeiras controvérsias surgiram quando o cristianismo ainda era uma religião recente: Primeiro os judaizantes, depois os docetistas, no século segundo foram os gnósticos, no século terceiro, Ário, e nos séculos seguintes também não faltaram homens controversos cujo exacerbado intento era comprometer a ortodoxia. O auge da controvérsia ocorreu na idade média e no início da era moderna quando o romanismo, em seu afã de arrecadar fundos para a construção da basílica de São Pedro, espoliou o povo europeu sob promessa de livrar as pobres almas do purgatório, e isso sem falar na comercialização de ícones, tais como espinhos da coroa de Cristo, pedaços da cruz na qual ele morreu, crânios (isso mesmo, plural – crânios) de João Batista, e tantas outras invencionices humanas que o “infalível” Papa e a “Santa” Igreja Católica homologavam sem nenhuma inibição. Tal era o abandono da Bíblia.

Caso a situação continuasse assim, seria realmente o fim da ortodoxia. Porém, nesse mesmo tempo houveram homens impulsionados pelo zelo ardoroso da verdade, que assumiram a tarefa de lutar pela manutenção da ortodoxia. Foi então que surgiram nomes como Martinho Lutero, João Calvino, Felipe Melanchton e Zuínglio, que não temendo a fúria de Roma, expuseram os abusos do clero católico e iniciaram o movimento que hoje conhecemos como a Reforma. Sua alcunha era Sola Fide, Sola Gratia, Sola Scriptura e Soli Deo Gloria. Desde então o movimento protestante, oriundo da Reforma religiosa, tem sido o principal preservador da ortodoxia.

Desde a época da Reforma, o mundo passou por uma série de transformações, e porque não dizer, pelas maiores transformações de toda a nossa história. Das caravela ao ônibus espacial, da bússula ao GPS, o mundo sentiu o impacto da tecnologia e essa mudança teve grande influência no pensamento ocidental. O Renascimento no século dezesseis, o Racionalismo do século dezoito, o Romantismo do século dezenove e todas as mudanças pela qual o mundo passou tiveram seu impacto sobre a teologia. O Renascimento trouxe de volta a ortodoxia, o Racionalismo, por sua vez, introduziu a crítica, a teologia liberal e o deísmo, e o Romantismo foi o portão de acesso para o existencialismo cristão, ou neo-ortodoxia.

Todo pensador está de certo modo envolvido com as idéias do seu tempo. Esse é um axioma antigo, porém válido. O contexto sócio-cultural, os conceitos filosóficos, o progresso tecnológico, a economia e os conflitos mundiais interferem indubitavelmente na maneira de pensar, e desde a Reforma até os nossos dias, não faltaram mudanças. Isso ocorreu de tal maneira e em tão grande quantidade que, se fossemos enumerá-las uma a uma, milhares de páginas seriam escritas, e isso não é nenhuma hipérbole.

Embora não seja possível listar de forma exaustiva os pensadores que exerceram influência no cenário teológico contemporâneo, faz-se necessário mencionar ao menos três deles: Immanuel Kant, Charles Darwin e Karl Marx.

O pensamento de Immanuel Kant é, sem dúvida, o grande divisor de águas da filosofia moderna, de modo que seu nome representa para a filosofia o mesmo que Copérnico representa para a ciência. Sua formação é um pouco eclética, para não dizer estranha: começou seu estudo dentro do pietismo, sendo depois influenciado pelo Iluminismo, em especial por Jean-Jacques Rousseau e Christian Wolff. Um dos filósofos da sua época, G.E. Lessing, propôs que “os eventos contingentes da história não podem servir de base para o conhecimento do mundo transcendente, eterno”. Segundo essa concepção, existe um abismo intransponível entre nós e Deus, e nós simplesmente não podemos passar para o outro lado e conhecê-lo. Ele é Todo-Transcendente. É nesse contexto que Kant aparece. A própria idéia de Deus como “Todo-Transcenente” ocorre inúmeras vezes em sua obra, sendo um dos principais postulados da sua filosofia. Essa idéia se transformaria no paradigma principal da neo-ortodoxia.

O nome Charles Darwin é comumente associado à teoria evolucionista. Embora já houvesse muitos modelos evolucionistas antes dele e tenham surgido muitos outros depois, é quase impossível ouvir seu nome sem associá-lo a teoria da evolução das espécies.

Em 1831 Darwin partiu para uma viagem ao redor do mundo para fazer observações científicas, levando na viagem o livro de Charles Lyell, Princípios de Geologia. Em 1839 ele começou a escrever a obra que se tornaria o seu legado, concluindo-a em 1844. Não se sabe ao certo por que, mas o fato é que Darwin levou 15 anos para imprimi-lo. É possível que a razão da demora resida no temor da indignação que seu livro poderia lançar. Em Origem das Espécies, Darwin faz a polêmica afirmação de que todos nós procedemos de um ancestral comum e animalesco, não havendo essencialmente nada que confira dignidade ao homem. O acaso nos gerou, portanto, não há Deus. Essa é a conseqüência lógica da sua cosmovisão.

Filho de judeus, Karl Marx nasceu em Trier, na Alemanha, em 1818. Foi, sem dúvida, um gênio intelectual, obtendo seu doutorado em filosofia aos 23 anos. Ele foi muito influenciado pelas idéias de Ludwig Feuerbach, o qual dizia que o homem não foi criado à imagem de Deus, mas Deus foi criado à imagem do ser humano. Sua filosofia lançou as bases do Socialismo. O pensamento de Marx é um pensamento voltado para o trabalho. Para Marx, não é o conhecimento espiritual que transforma a existência e, consequentemente, a vida social, mas exatamente o contrário: com a revolução, o corpo social transforma também a sua subjetividade. Esse pensamento servirá de base do movimento da “teologia da libertação”, na segunda metade do século vinte.

Embora seja útil apontar todos os ascendentes do pensamento teológico do século vinte, tal tarefa seria muito pesarosa e fugiria ao escopo da nossa pesquisa. Certamente há muitas outras vertentes que influenciaram o pensamento teológico no século passado e contribuíram para o abandono da teologia ortodoxa no século vinte. Mas não foi só o pensamento renascentista, iluminista ou evolucionista que exerceu influência sobre a teologia do século passado: a intempérie do início do século vinte também contribuiu para as diversas variações ocorridas na teologia contemporânea. Só na sua primeira metade, houve duas guerras mundiais. Esse processo de guerras consecutivas contribuiu de certo modo para uma perda de identidade do homem do século vinte. Essa perda de identidade e falta de objetividade resultante do pós-guerra foi a coluna principal do existencialismo. Em um mundo desorganizado e desumanizado, a única certeza que o homem tem está relacionada a sua própria existência. Desde então houve um grande desenvolvimento da uma filosofia centrada no “Eu”, e nomes como Martin Heidegger e Jean-Paul Sartre ganharam projeção mundial. Os pressupostos existencialistas destes pensadores também tiveram grande influência no pensamento teológico contemporâneo.

Esta obra não é fruto de toda uma vida de esmero teológico e nem tampouco nenhum grande logro acadêmico. Ela é muito simples e até limitada, oferecendo apenas uma pequena introdução à matéria de teologia contemporânea. “TEOLOGIA CONTEMPORÂNEA: Uma análise do desenvolvimento do pensamento teológico no século vinte”, encontra sua justificativa na necessidade de conhecermos as mudanças históricas que vêm acontecendo no cenário teológico mundial. Ela certamente servirá de guia no estudo da Teologia Contemporânea, podendo ser utilizada por professores nos seminários.

A perspectiva adotada é conservadora, como entendemos ser também a teologia apostólica, porém, conservadorismo não é sinônimo de ignorância ou apatia intelectual. Muitas pressuposições da teologia contemporânea nos são úteis, principalmente no campo da critica textual, mas não podemos jamais sacrificar as nossas crenças fundamentais no altar do pós-modernismo.

A pós-modernidade não tem influenciado apenas os teólogos em sua maneira de pensar, mas também os pastores e líderes das nossas denominações. A Bíblia tem sido abandonada, e quando aparece, é permutada. Que ao examinar as correntes teológicas que serão apresentadas nessas páginas, ninguém assuma uma postura indiferente. Nosso desejo é que ao ler o conteúdo programático dessa dissertação, o leitor, seja teólogo, pastor ou leigo, possa assumir uma postura de apologeta e juntar-se a nós na luta pela manutenção da ortodoxia bíblica, por aquela unidade fundamental que havia em nossos irmãos primitivos.

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