Heilsgeschichte: A escola teológica do Dr. Oscar Cullmann

Parte do mundo teológico do século vinte gira em torno de uma palavra alemã, Heilsgeschichte, que pode ser traduzida para a língua portuguesa como história da salvação. A palavra ganhou um significado mais pleno dentro da teologia ocidental contemporânea após os escritos do teólogo suíço, perito no Novo Testamento, o Dr. Oscar Cullmann. Ainda que o significado e origem de heilsgeschichte remonta aos teólogos alemães do século dezenove, como J.C.K. von Hofmann e Adolf Schlater, o Dr. Cullmann é a pessoa que popularizou o termo no século vinte.

Introduzir neste ponto nosso estudo sobre Cullmann e a Heilsgeschichte é intencional, porque parte da obra de Cullmann foi escrita de modo a refutar e interagir algumas idéias de dois importantes teólogos contemporâneos, cujos pressupostos já foram apresentados, a saber: Barth e Bultmann. De Karl Barth, a Heilsgeschichte de Cullmann tomou muitas idéias básicas para um novo enfoque da história. Também foi influenciado pela compreensão cristocêntrica do barthianismo e pelo conceito definitivo do papel da fé na revelação divina. De Rudolf Bultmann, Cullmann tomou os métodos exegéticos da crítica formal para aplicá-lo em sua reconstrução da história do Novo Testamento. Devido a essa relação com os escritos de Barth e Bultmann, é sábio referir-se as idéias de Oscar Cullmann como sendo neo-ortodoxas em sua orientação.

O mais interessante na obra de Cullmann é que, ao mesmo tempo em que Cullmann manteve algumas idéias de Barth e Bultmann, ele não temeu desassociar-se desses homens. Ele diz que Barth e Bultmann assimilaram noções filosóficas estranhas “que corromperam sua percepção da mensagem espontânea do Novo Testamento”. Segundo Cullmann, o impulso de Bultmann, principalmente ao fazer distinção entre os elementos essenciais e acidentais da mensagem do Novo Testamento, é arbitrário e ingênuo. O Novo Testamento, segundo ele, deve ser a chave para a compreensão de si mesmo.

Esta diferença entre Cullmann e seus contemporâneos pode explicar porque muitas de suas idéias têm sido aceitas aos evangélicos ocidentais, ao passo que as idéias de Barth têm sido rejeitadas. Seus escritos são menos dependentes do existencialismo e de outros pressupostos filosóficos, e mais dependentes da exegese bíblica do que a obra de Barth e Bultmann. Diferente desses dois homens, ele submeteu suas interpretações ao contexto que lhe oferecia a própria Escritura, se opondo fortemente a muitas características radicais da crítica formal e da desmitologização. Neste mesmo sentido, enfatizou a importância da história para a compreensão adequada da Bíblia. Ainda que seu conceito de história está bastante renhido com o evangélico, sua ênfase na idéia central da história da salvação, de que Deus atua na história, comunga muito bem com a teologia ortodoxa. Outro ponto importante na teologia do Dr. Cullmann é a ênfase cristológica de seus escritos. Um dos livros mais inteligentes de Cullmann é um estudo exegético dos títulos de Cristo no Novo Testamento. Neste livro ele afirma que a teologia cristã primitiva é quase exclusivamente cristologia.

7.1- Principais postulados da escola Heilsgeschichte de teologia.

A Heilsgeschichte (daqui por diante nos referiremos a ela apenas por história da salvação), como escola de interpretação teológica insiste principalmente na história e na revelação de Deus na história. O tempo, para Cullmann, é algo no qual Deus atua para realizar a salvação do homem em Cristo. A revelação e a redenção divina estão baseadas em realidades históricas bem objetivas, e não em mitos levantados pela igreja, como afirma Bultmann, porém, ao enfatizar a história como veículo da revelação, Cullmann consequentemente está privando a Escritura de ser o dado básico da religião cristã. O dado básico passa a ser a história santa e a Escritura passa a ser apenas uma constante desse dado definitivo, e não uma realidade em si mesma. Como afirmou George Ernest Wright, perito em Antigo Testamento da mesma escola, “a revelação se dá em fatos históricos, não em palavras. Devemos entender o Novo Testamenticomo testemunho dos atos reveladores de Deus”.

A ação central na história da salvação é a primeira vinda de Jesus Cristo como Salvador. Toda a história e todo o tempo, segundo Cullmann, são um drama mundial e Jesus é a figura principal neste drama. Os judeus no tempo do Novo Testamento aguardavam a vinda do Messias-Salvador como o anuncio iminente do fim do mundo, o centro da história, depois do qual viriam as glórias da era vindoura. A Bíblia dá testemunho que Jesus é o messias e que ele deu início a essa nova era.

Isso implica em uma nova perspectiva escatológica. Para Cullmann, a escatologia inclui todos os sucessos salvadores a partir da encarnação e concluirá com a segunda vinda. As bênçãos da era vindoura começaram com a obra e o testem,unho de Cristo, mas sua finalização está reservada para o tempo da segunda vinda, quando o Reino de Deus estará presente de modo pleno, em todo o seu poder e glória. A igreja, portanto, apareceu na história da salvação na fase final do plano de redenção divino. A batalha que decide a vitória final já teve seu lugar, de modo que a história se encontra em um drama cósmico, sendo ela mesma a chave de ação na linha estreita da história bíblica. A razão pela qual Cullmann não admite que o Evangelho seja revelação é justamente essa: aceitar o Evangelho seria limitar a ação de Deus a essa linha estreita.

Quanto à revelação, Cullmann afirma que o interprete somente conhece a história quando se identifica com ela. Obviamente que essa é uma idéia neo-ortodoxa. A história, quando o interprete a conhece, passa a ser revelação, e o estudioso participa dessa história pela fé. A pesar da forte insistência na historicidade dos relatos bíblicos, Cullman e os outros teólogos da história da salvação ainda têm dificuldades em considerar o significado da salvação como algo objetivamente acessível, e continua falando da experiência religiosa como ponto de apoio da revelação.

7.2- O pensamento de Cullman e a ortodoxia teológica.

Apesar da crítica que Cullmann faz do uso da crítica formal por parte de Bultmann, em última análise, o uso que ele mesmo faz do criticismo faz distinção entre a Bíblia e a palavra de Deus. Cullmann chama o relato Bíblico da criação e a segunda vinda de mitos, o que mostra que ele não está totalmente disposto a admitir a realidade da revelação como verdade infalível contida na Escritura.

Com relação ao conceito de Cullmann sobre a revelação, também deveríamos advertir que ele continua dependendo muito do subjetivismo da neo-ortodoxia. A teologia da reforma sempre insistiu na necessidade da iluminação do Espírito Santo para compreender a revelação de Deus (1Coríntios 2.14). O maior propagador da história da salvação crê que, a menos que o homem a entenda, ela nem mesmo é revelação.

Por último, sua ênfase exclusivamente cristológica acaba por converter o cristianismo em cristomonismo – para usar uma terminologia barthiana – , pois ao enfatizar demais o cristocentrismo, ele acaba por negligenciar as formulações cristãs históricas da doutrina da trindade. É verdade que a teologia da igreja primitiva estava marcada pela cristologia (2Coríntios 13.13), mas era também uma teologia trinitariana (Romanos 8.31-39; João 1.18 e 1Coríntios 15.28).

Como já foi esposado anteriormente, a teologia da Heilsgeschichte se parece muito com a teologia ortodoxa. Sua forte insistência na salvação como um sucesso histórico centrado em Cristo é muito útil como defesa apologética e refuta a contento o programa de desmitologização de Bultmann. Suas idéias acerca da relação entre a escatologia e a primeira vinda de Cristo, têm se demonstrado especialmente úteis, inclusive para corrigir certa insistência ortodoxa do passado. Suas idéias exegéticas a respeito das escrituras também são parte significativa de sua contribuição para a teologia. Junto com isso, o leitor evangélico deve ter sempre presente que os pressupostos básicos de Cullmann são os de Barth e Bultmann e consequentemente essas mesmas idéias às vezes são um estorvo para o exame e compreensão da história da salvação.

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