Teologia da história: Wolfhart Pannenberg e a teologia histórica da ressurreição

No final da década de cinqüenta se podia facilmente perceber o surgimento de uma nova escola de interpretação teológica. Esta nova ênfase podia ser claramente percebida nas teses de doutorado de jovens professores como Ulrich Wilckens, Klaus Koch e Rolf Rendtorff. Porém, o maior nome dessa nova escola foi sem dúvida o de Wolfohart Pennenberg, tanto que esse grupo de jovens teólogos e a nova escola ganhou o epíteto de “círculo de Pannenberg”.

Wolfhart Pannemberg, jovem professor de teologia sistemática da Universidade de Mainz, na Alemanha, foi o responsável por dar uma forma mais sistemática ao que posteriormente se convencionou chamar Teologia da História, ou Teologia da Ressurreição.

Apesar do caráter particular da sua obra, há quem associe a este círculo o nome de Jurgen Moltmann. É verdade que Pannenberg compartilhem algumas idéias comuns, como o interesse pela relação entre a história e a fé, o desejo de uma orientação teológica escatológica e principalmente a ressurreição de Cristo, além do esforço por refutar os pressupostos existencialistas de Bultmann. Porém, mesmo com tal similaridade de interesses, seria incorreto agrupar os dois na mesma escola de pensamento, isso porque, se por um lado há um ponto de contado entre os dois, por outro lado há diferenças importantes entre esses dois esquemas teológicos. Por exemplo: Moltmann não está tão interessado em alicerçar a fé na história. Outra diferença entre ambos está no modo de entender a fé: Para Pannenberg, a fé está relacionada com o passado, enquanto Moltmann a relaciona com o futuro. Neste sentido, Moltmann está muito mais vinculado a Bultmann que a Pannenberg. Os dois também falam da ressurreição de cristo como um tema central da fé cristã, porém, enquanto Moltmann descarta qualquer interesse pela ressurreição corporal como sendo algo impertinente, Pannenberg reconhece a realidade histórica da ressurreição como algo crucial para a compreensão do Novo Testamento. Pannenberg também não compartilha dos pressupostos marxistas de Moltmann, nem com suas idéias de revolução social.

11.1- A questão da fé relacionada à história.

Em sua teologia, Pannenberg apresenta uma forte resistência às idéias de Rudolf Bultmann, principalmente por seu conceito de redução da história à experiência individual. Ele também se opõe à Karl Barth, acusando-o de proteger sua teologia, escondendo-a dos ataques da história.

As idéias de Pannenberg foram revolucionárias em seu tempo, ao ponto de certo crítico afirmar que ele foi o primeiro teólogo alemão contemporâneo a romper totalmente com os pressupostos dialéticos barthianos. Ele não consegue assimilar as idéias dialéticas. As supostas diferenças entre Historie e Geschicthe, entre o Jesus histórico e o Cristo Kerigmático, e ainda os dois mundos propostos por Kant: o dos fenômenos e o mundo numenal , na visão de Pannenberg são “um clamor sem sentido”. A pregação da “Palavra de Deus” é uma afirmação vazia se não estiver relacionada com aquilo que realmente aconteceu. A fé não pode ser separada de sua base e conteúdo histórico.

11.2- O conceito de revelação e fé em Pannenberg.

Pannenberg insiste em que a revelação de Deus não chega ao homem de forma imediata, e sim mediata, por meio dos sucessos históricos. Ele afirma ainda que esta história na qual se dá a revelação, não é uma revelação especial que só pode ser compreendida pela fé, como afirma a escola Heilsgeschichte. Segundo ele, não devemos fazer distinção entre história salvífica e história secular ou profana (distinção comum tanto na Heilsgeschichte como nas teologias existencialistas contemporâneas), uma vez que os atos salvíficos de Deus realmente aconteceram e tem o seu lugar na história. Para ele, a revelação se dá exclusivamente por meio de atos históricos.

Não existem partes específicas na história, ou ramificações dentro da história, antes, toda história é algo plenamente conhecido e até mesmo ordenado por Deus. Esta revelação histórica está ao alcance de todo aquele que tenha olhos para ver. O conhecimento histórico é a única base da fé. A fé é, portanto, o conhecimento da verdade histórica.

11.3- Pannenberg e a ressurreição de Cristo.

Difernte de Moltmann e dos outros teólogos existencialistas, Pannenberg não busca desmitologizar a ressurreição, isso porque, para Pannenberg, a ressurreição foi um fato histórico. Ele diz estar convencido não só de que a crença da igreja na ressurreição não é um mito pré-fabricado, como ensinou Bultmann, como também de que ela é historicamente demonstrável, em oposição clara e aberta com a escola Heilsgeschichte. Ele se recusa a explicar os relatos evangélicos da ressurreição como fruto da imaginação dos apóstolos, pois estes estavam muito desanimados após a morte de Cristo para chegarem sozinhos à conclusão de que Cristo ressuscitou. Eles também não teriam nenhum benefício em inventar uma mentira de tamanha proporção. A única explicação satisfatória para a repentina mudança que ocorreu nos apóstolos é exatamente a ressurreição corporal de Cristo. Além disso, a comunidade cristã primitiva não teria conseguido sobreviver, caso o túmulo de Jesus não estivesse, de fato, vazia. A explicação inventada pelos judeus para refutar a ressurreição é que os discípulos roubaram o corpo, mas ninguém se atreve a questionar a realidade do túmulo vazio. O túmulo vazio é um fato histórico e aliado à mudança repentina que ocorreu nos discípulos, é uma forte evidência de que Jesus realmente ressuscitou corporalmente.

11.4- Objeções à teologia de Wolfhart Pannenberg.

Ainda que Pannemberg ataque as posições de Barth e Bultmann no que concerne à relação entre fé e história, há muitos aspectos em que ele parece mais um herdeiro da neo-ortodoxia que seu oponente. Ele não confere à toda Bíblia o status de revelação divina, dando a entender que algumas partes são mais importantes que outras. Embora o mesmo ocorra no pensamento de Agostinho e até mesmo de Lutero, essa visão que ele possui da Bíblia tem levado muitos a relacionar o seu nome com a crítica histórica e com o próprio Bultmann. Uma e outra vez ele insiste em que o nascimento virginal é um mito. Ele também está de acordo com Bultmann em que os títulos que expressam a divindade de Jesus foram criados pela igreja primitiva.

Ao fazer que a fé dependa exclusivamente da história, Pannenberg leva-nos a concluir que as pessoas simples e sem condições para efetuar uma pesquisa investigativa, não são capazes de crer por si mesmas; elas apenas podem crer quando ouvem e confiam no relato de um perito em história cristã. Com isso, ele parece tirar a fé das mãos do crente simples e colocá-la nas mãos do teólogo experiente, que garante a confiabilidade da informação.

Os críticos de também parecem indicar que, sobre esta base, Pannenberg não pôde explicar de modo satisfatório a razão da incredulidade. Se a fé está baseada exclusivamente no conhecimento da história e esta é o seu único fundamento, Porque foi que quando Paulo pregou em Atenas uns creram e outros zombaram?

A teologia de Pannenberg é muito mais do que uma simples escola de interpretação. Ela é uma brilhante defesa apologética em favor do cristianismo histórico. Seu sistema é mais ortodoxo que o proposto pelos existencialistas e nos faz lembrar que, embora Barth e Bultmann hajam tido debates acirrados, não existe grande diferença entre seus sistemas. Ambos advogam uma teologia dialética que sufoca tanto a revelação histórica como o caráter universal do cristianismo. Além disso, Pannemberg também ressalta que a falta de uma revelação objetiva da neo-ortodoxia é, de fato, uma ameaça à própria revelação. Sua teologia também é importante porque ressalta ao mundo que a fé cristã é a única verdade universal. Ao refutar a idéia neo-ortodoxa de que a revelação só se transforma em verdade para as pessoas por meio de uma aceitação pessoal, Pannenberg destaca que a revelação não se torna revelação quando é compreendida, ela é revelação, mesmo quando o homem não se interessa ou busca compreendê-la.

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